Por que essa merda de sangue não para de correr?
Corre quente. Fervendo. Queima. Marca.
A minha marca no corpo.
terça-feira, 13 de março de 2012
Postado por Heloisa Emy às 15:35 1 comentários
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Dia 24.12... Mil novecentos e noventa e trá lá lá
Saída: Interior
Destino: Cidade da garoa
Fazer as malas, colocar as crianças no carro e seguir viagem! A viagem não era tranqüila, mas agradável. A mais velha apoiada nos bancos da frente conversando com os pais, e puxando a brincadeira que duraria metade da estrada.
As palavras soltas no ar lembravam músicas, e as pequenas cantarolavam no banco de trás. Pai e mãe participavam com músicas antigas, e já conhecidas pelas meninas.
Era a vez das músicas de natal...Jingle Bells, Snowman, Santa Claus e por aí vai! Quer dizer, ia...
Após longas e divertidas horas de viagem, era a vez das apostas. A que horas exatamente passariam pelo monumento de entrada de São Paulo! Quase impossível acertar!
Chegaram à casa da vovó e do vovô! Aquela árvore cheia de enfeites, luzes e presentes! E aquele ar sempre úmido e mágico no terraço!
As meninas mal chegavam e já iam para a árvore tentar adivinhar o que tinha em cada pacote de presente. Apalpavam, chacoalhavam... A família reunida na cozinha fazendo a salada, o avô de olho no pernil e tender, a avó arrumando a mesa (ah! Que mesa perfeita. 100% etiqueta!), a tia fazendo palhaçada e os tios aprontando com as meninas.
Hora do jantar! Ou melhor, da ceia de natal. Todos se sentavam à mesa, compartilhando a comida, e conversando sobre a vida. O tom de felicidade estava entre os familiares.
Após a ceia, todos se reuniam em volta do presépio. Hora de agradecer o ano que se passou e pela maravilhosa família que ali se reunia. Belas palavras ditas pela avó!
As duas crianças iam para o quarto que fica no segundo andar, a fim de se fantasiarem para a festa de Natal! A mais velha se vestia de papai Noel, com direito a barba de algodão, enquanto a mais nova era o duende, com direito a orelhas pontudas feitas de papel.
Desciam com o saco de presentes distribuindo alegria sem limites! E a troca de presentes começava... Era amor disfarçado em brinquedos, roupas e apetrechos!
Panettone e Eggnog para o papai Noel no fim da noite e a espera por uma manhã de natal com dois presentes de baixo da árvore!
25.12... 2011
Sem família reunida na viagem; sem brincadeiras no carro; a eterna umidade e magia no terraço da casa dos avós; sem papai Noel e duendes...
Ceia, presentes, família...
Bisnaguinha e Iogurte debaixo da árvore... ele não veio!
Postado por Heloisa Emy às 23:29 0 comentários
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O vento balança suavemente as folhas das árvores. Folhas amareladas. E elas vão caindo aos poucos. É fim de tarde. O céu combina com a cor das folhas. Ele está naquele tom vermelho/amarelado. E a noite vem chegando devagar.
Os pássaros voam em bando a procura de uma árvore, talvez aquela primeira, para que possam passar a noite. Eles voam e cantam. A mistura deles, de suas cores, tipos e cantos é uma bela orquestra com uma fotografia quase indescritível.
Agora a noite sobe depressa. A bela sinfonia antes escutada vai diminuindo.
Chega você, noite misteriosa, quase imperceptível e sussurra em forma de assobio do vento dizendo que hoje vai ser diferente.
As horas passam e poucas pessoas andam pelas ruas, antes carregadas de carros, pensamentos e sentimentos. As luzes vão diminuindo.
Mas ao longe te vejo. Ah! Como brilha! Um parque. Você está a balançar, sento-me junto e lá ficamos; quietos. A noite passa diante dos seus olhos e a vida diante dos meus.
Agora é o sol quem nasce, “desvirginando a madrugada”. Estou nua e os carros voltam a passar. Uma sensação de leveza toma o corpo de quem passou a madrugada deliciando-se de seus ares, segredos e pecados. É um ar leve.E o sol vem iluminar a realidade.
Volto para casa a pé. Um passo de cada vez, com a cabeça ora erguida, ora não. Chego embriagada. Sou santa, sou o pecado. Sou eu, se pergunta. Mas afinal, quem és tu?
Me ajeito nos seus braços e adormeço no sono mais profundo. É você quem procurei a noite toda... Agora você me toma nos braços. Sou sua.
Boa noite meu "mocinho".
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sexta-feira, 3 de julho de 2009
Postado por Heloisa Emy às 10:37 10 comentários
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quarta-feira, 13 de maio de 2009
Durmo com a certeza que te tenho em meu ventre...
Sinto-te tão internamente.
Quero te proteger, então me encolho e te envolvo em meus contornos.
Te olho e meus olhos se enchem de lágrimas, quero te tocar, hesito. Não consigo, e por que não?
Logo eu que nunca te quis, na verdade ainda não quero, então talvez seja por isso. Agora é você quem olha, e nada mais importa, te tenho em meus braços. E sinto que você foi o que eu sempre esperei.
É você pequena, é você que completa meu vazio. Eu, sujeito faltante, você, objeto de desejo, meu grande outro. Para você, sou eu seu grande outro, quem te completa. Somos um só.
A dor nos braços da perda do filho, de tanto esticá-lo para alcança-te, te procuro, mas não te encontro.
Dizem-me:
- Não percebe? Ele já foi muito antes de ter chegado.
Outros
- Não vê? Ele não existe mais, virou pó.
Quando foi que te tiraram de mim, quando foi que te perdi? Foi na imensidão da vida, por entre meus dedos ou num piscar de olhos?
É difícil falar do que não se tem, mas mais difícil é sentir o que não existe. É inaceitável saber que não passou de um sonho. E que jamais vou poder te envolver nos braços, preencher todo espaço, e meu vazio.
Choro calada. As lágrimas escorrem pelo meu rosto de expressão vazia, antes tomado pela calma e alegria ao ver seus movimentos desajeitados e seu sorriso.
Deito, encolhida, com os joelhos em meu queixo, banhada em lágrima e sangue, e ainda te sinto.
Acordo com a tristeza de um ventre murcho e de braços vazios.

Postado por Heloisa Emy às 00:10 13 comentários
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domingo, 15 de março de 2009
As vinte e oito mulheres
Já tive que escrever redações autobiográficas, e na minha opinião, é difícil falarmos quem somos. Somos a junção de tudo, filho de um, pai de outro. Vizinho daquele, amigo desse. O que realmente nos torna únicos é aquilo que chamamos de essência. Há quem acredite que ela é construída, outros acham que nascemos com ela.
Já eu, acredito que nascemos com ela, e que, também, a construímos; um pouco de cada.
Nunca, como hoje, vi a importância que o meio tem na vida de alguém.
O que foi que aconteceu?
Onde foi que vidas seguiram caminhos tão opostos, onde foi que houve a separação? De quem foi a culpa? De quem é o medo?
A maioria delas mal sabe escrever. Mas já sabem de drogas, sabem vender, sabem se vender pra conseguir comprar. Comprar seu vício, sua droga, sua “saída”...
Lendo seus textos, não me pareceram reais. São meninas cheias de sonhos, cheias de culpa, cheias de amor.
Se não todas, mas a maioria relata da sua saudade de casa, da mãe, do colo.
Foi proteção que faltou, foi carinho?
Nem todas têm uma família desestruturada, nem todas são filhas de criminosos, traficantes ou alcoólatras. Todas são filhas, e quase todas são mães.
Naquelas folhas soltas de caderno, havia a infância perdida, havia sonhos... No canto, desenhos de corações, flores, e mimos. Lá se via um futuro, futuro desejado, mas não um certo. “Quando sair daqui vou voltar a estudar”, “quero ser veterinária”, “quero ser médica”, quero ser isso, quero fazer aquilo.
Talvez seus sonhos venham a se realizar um dia, talvez não.
Não posso julgar qual modo de levar a vida é mais fácil, é melhor. Até agora só conheço o meu.
Ter contato com vocês me trouxe um grande aprendizado e senso de realidade. Deixemos de olhar para nosso próprio umbigo, levantemos a cabeça. O mundo está aí e a diversidade nele.
Vinte e oito! Essa é uma pequena amostra das jovens criminosas do Estado de São Paulo.
“Ele tava de joelho, implorando pra viver. A arma tava na minha mão. O meu dedo escapou e apertei o gatilho. [...] O que é uma vida?” Parte integrante de uma das redações. Esta foi a que mais me impressionou. A única que questiona a existência de Deus, enquanto as outras acreditam piamente nele.
Não entendo o amor pelas mães que elas têm, não entendo porque continuar com alguém que te levou para esta vida e que te bate constantemente, não consigo entender porque a maioria dessas meninas voltam para a mesma vida de antes. A Fundação Casa de nada adiantou então?
Elas não são mais meninas, cresceram rapidamente. Agora são mulheres. As 28 mulheres que entraram e mudaram a minha vida.
Postado por Heloisa Emy às 16:19 9 comentários
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Penso naquele dia, naquele momento. As suas palavras tão carregadas de sentido e sentimento quando você disse adeus.
"E a gente vai se encontrar...
Não importa em que esquina eu me perca, em que viela eu me esqueça.
Na vida é assim, a gente encontra e desencontra... consigo e contigo.
Nunca foi tão breve meu caminho. Nunca foi, não, nunca.
Nos passos do tempo eu me entendo...
Não me espere. Quando a gente espera, a gente se desespera.
Desesperar nos dois sentidos. Naquele primeiro, da palavra em si: desesperar, enlouquecer, esvainecer; que traz angústia e medo. E aquele outro, quando desintegramos a palavra: des-esperar = não esperar
Então o próprio deseperar já nos diz que não é para esperar pois ele causa loucura, devaneios...
A desesperança, lembra?
A maré está alta e o vento está forte. E eles me levam hoje.
Por favor, não chore..."
As suas mãos, trêmulas, me tocavam o rosto. Um olhar vazio, é a única coisa que vejo.
E suas palavras vão perdendo o sentido da razão
"Não sinta medo. Eu não sinto. Alías eu não sinto mais nada. A esse mundo não pertenço mais.
E se insistir em ficar, vou me perder, perder a paz. Paz que eu insisto em encontrar.
A música diz: só precisamos respirar.
Me falta ar, num mundo cheio de O2 e CO2"
Sua voz já falha... E ninguém percebeu que atrás daquele sorriso escorria uma lágrima. E a lágrima era de sangue, a lágrima era do nosso sangue. Não azul, mas um vermelho forte, quase preto.
"O achincalhado palhaço que chora manchado de sangue." TARDIVO, R. Essa frase nunca fez tanto sentido como faz agora... Intensa, pesada!
Agora as lágrimas são minhas...
"Não chore. Não sinta medo. Nada mais preciso. Assim como o vento leva, o vento traz. Vejo você, agora de longe, estendendo uns lençóis no varal. Crianças, nossas crianças, brincando entre eles. Que risada gostosa!
É entre esses lençóis brancos, estendidos em área aberta, com a grama verde recém cortada e um céu azul, que acontecem os encontros, mesmo que não reais, mas subjetivos.
Num dia, quando você menos esperar, eu vou aparecer por entre esses lençóis... porque a gente vai se encontrar."
Você se foi, mais cedo do que nunca. Te espero? Não sei, mais ainda sim me desespero! O tempo fechou, mas mesmo assim há lençóis no varal todos os dias.
Postado por Heloisa Emy às 00:55 13 comentários